quinta-feira, 8 de julho de 2010

Três vezes Belo Monte

O MME está em vias de colocar em consulta pública a proposta do Programa Nacional de Eficiência Energética (PNEf), cuja meta é economizar 106 TWh/ano em 2030 – quase o triplo da geração anual de Belo Monte, quando a megausina estiver em plena operação (40,041 TWh/ano). Por sua vez, a Eletrobras intensificará as ações do Programa Nacional de Conservação de Energia Elétrica (Procel) no setor fabril.

Embora aparentemente distintas, na prática as duas iniciativas caminham juntas. O estudo desenvolvido em 2009 pela Eletrobras e a Confederação Nacional da Indústria (CNI), que identificou um potencial de economia de energia de 25% no segmento industrial, serviu para balizar os primeiros rascunhos do PNEf. O levantamento ainda preparou o terreno para a estatal elétrica iniciar uma nova etapa de ações voltadas para a indústria, mais focada na gestão energética do que na substituição pura e simples de equipamentos e materiais ineficientes.

Os primeiros números revelaram que, dos 14,6 milhões de toneladas equivalentes de petróleo (TEP) de potencial de economia de energia na indústria brasileira, 82% (quase 12 milhões de TEP) estão no consumo de combustíveis, sobretudo em fornos e caldeiras. O potencial de redução do consumo de energia elétrica está fortemente concentrado em sistemas motores, com 14% – cerca de 2 milhões de TEP – do total levantado no estudo. Em termos financeiros, a economia de recursos pode atingir R$ 6,8 bilhões anuais apenas com energia elétrica.

Obstáculos
O trabalho também listou obstáculos para a implantação de projetos de racionalização. Entre eles destacam-se o uso ineficiente de recursos financeiros; a falta de estrutura adequada nas empresas para otimizar o consumo dos insumos industriais; a insuficiência de ações governamentais específicas para a indústria; e o desinteresse das companhias em ações de eficientização.

Segundo o presidente da Abesco, José Starosta, perde-se hoje cerca de R$ 15 bilhões em transmissão e distribuição. Apenas com ações de eficiência, diz ele, seria possível economizar R$ 10,5 bilhões – 38,815 TWh/ano –, considerando o consumo total de energia em 2009.

Em junho, a Abesco firmou com o Centro das Indústrias do Estado de São Paulo (Ciesp) um protocolo de intenções para disseminar programas de racionalização do uso da energia.

Parcerias
Identificados potenciais e gargalos nos principais ramos da indústria, o Procel agora firmará parcerias com as associações de cada setor para o desenvolvimento do programa. A primeira delas foi fechada recentemente com a Associação Brasileira Técnica de Celulose e Papel (ABTCP). O setor tem um potencial de conservação de energia de 1,17 TWh em 2019, de acordo com o último Plano Decenal, da EPE.

O Procel ainda está elaborando guias técnicos em eficiência energética dedicados ao chamado “chão de fábrica” – a área de produção. E também trabalha com a ABNT na norma internacional ISO 50001, relativa à gestão de energia pelas fábricas, prevista para ser implementada em meados de 2011. A expectativa é de que a norma sirva de incentivo para a indústria.

A relação mais direta com cada segmento industrial é positiva para o Procel, que passa a conhecer mais detalhadamente os processos fabris. Por outro lado, a indústria também aumenta seu conhecimento sobre conservação de energia, já que a falta de conscientização ainda é um dos maiores problemas. Afinal, o setor industrial sentiu no bolso um aumento de 150% da tarifa de energia nos últimos sete anos, um crescimento 83% superior à inflação no mesmo período.

“Eficiência energética não é apenas trocar equipamentos. É preciso olhar toda a linha de produção, todo o sistema. O eficiente é uma ideia global do processo”, avalia o gerente do departamento de Projetos de Eficiência Energética da Eletrobras, Fernando Perrone. Para ele, essa é a única saída para alcançar a meta de economia de energia do PNEf.

Medição e verificação
O Procel ainda quer definir um modelo ideal para medição e verificação (M&V) dos resultados dos projetos de eficiência energética. Segundo Perrone, esse é um fator essencial para estimular as indústrias. Com os resultados expressos em números, é mais fácil atrair o interesse industrial para a eficientização. “Até hoje, nossos resultados são basicamente qualitativos. Agora queremos que eles sejam quantitativos”, explica.

Um modelo ótimo de M&V também está sendo buscado pela Aneel. Apesar da existência de um padrão internacional, a agência quer implantar um modelo mais adequado à realidade brasileira para aferir os ganhos de eficiência energética dos projetos desenvolvidos com recursos das distribuidoras de energia. Um problema, no entanto, é como medir os resultados de ações educacionais e de conscientização, que geram grandes benefícios indiretos.

Os modelos de M&V também serão trabalhados dentro do PNEf, a fim de viabilizar os leilões de eficiência energética. O problema é definir como capturar o ganho de eficiência energética de um consumidor para que possa ser negociado em um ambiente de comercialização do porte de leilões. (Brasil Energia)